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Ignorado durante
séculos pelos portugueses, habituados a acharem que o que vem de
outros países é que é bom, foi junto do pastor, pobre e humilde, que
o Cão da Serra da Estrela se estabeleceu e desenvolveu aptidões. Cão rústico,
de grande porte e robustez, deu durante gerações garantias, aos pastores
serranos, de melhor qualidade na guarda dos seus rebanhos. Cão afoito
e pronto a defender o dono e o gado, que guardava, dos predadores das
redondezas, assim como de assaltantes, manteve durante séculos a segurança
nas encostas verdejantes da Serra da Estrela. Habituado à liberdade e
a grandes espaços, firmou características de independência e
autoconfiança, que ficaram bem fixadas no seu carácter de cão de guarda.
Preferido pelos pastores humanos por confiarem nas suas aptidões, esta
raça desenvolveu-se ao longo dos tempos e fixou-se no espaço onde, devido
ao isolamento, lhe proporcionou, de certa forma, uma evolução natural e
seleccionada - a Serra da Estrela. Tendo como maior inimigo o lobo,
lutou contra alcateias, em defesa dos seus bens: o gado e o pastor, com
enorme coragem e bravura, facto que ainda se verifica hoje, no desempenho
da guarda de propriedades. Sabendo-se que a raça é das mais
antigas da Península Ibérica, desconhece-se, no entanto, a sua origem e
aparecimento. Há referências destes cães, como fiéis amigos de
Viriato, o pastor Lusitano, que lutou contra os romanos, no século II
a.C., em defesa da então Lusitânia. Não se sabe, no entanto, se será
verídica ou não passará de lenda. O facto é que no século XVI, o poeta
Brás Garcia de Mascarenhas descreve assim o cão de Viriato:
''Largo de espaduas de olhos carrancudos, Rasgada a bocca,
orelhas derrubadas, Ventas negras, focinho cabelludo, Beiços
cahidos, garras encrespadas, Fornidos pés e mãos, corpo
membrudo,
Secco nas ancas, gordo nas queixadas. Curvas unhas e dentes, rabo
grosso, Grosso e curto nos hombros o pescoço.''
Descrição que
se enquadra bem ao Cão da Serra da Estrela. Ao longo de muitos e
muitos anos, o ''Serra da Estrela'' foi o melhor cão que um pastor serrano
poderia ter na luta contra predadores como o lobo ou o urso que na serra
abundavam. No entanto, infelizmente, estas espécies começaram a rarear e
durante o século XX desapareceram naquelas paragens. Foi com o
desaparecimento, especialmente do lobo, que os pastores começaram a
demonstrar ingratidão humana com o
''Serra''.
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